Resumo da Final da Liga Europa 18/19

Para quem não viu a final londrina da Liga Europa, fica aqui um resumo:

A partida começou aborrecida e a primeira parte terminou Azeri. No segundo tempo o jogo ficou mais Giroud, com o avançado francês a inaugurar o marcador. O segundo golo não tardou a aparecer, por intermédio de Pedro Rodriguez Ledesma. A defesa do Arsenal foi lenta a reagir, parecia mesmo uma Ledesma. Não há duas sem três e o terceiro golo resultou de um penalti, após má abordagem do jogador do Arsenal na grande área. Maitland-Niles tentou cortar a bola, mas teve Hazard. Poucos minutos volvidos e o Arsenal reduziu com um grande golo. Estava distraído no momento desse lance e nem Iwobi em condições. Em seguida, Hazard bisou e fez Čech-mate nesta final da UEFA. Ainda houve lances de perigo para o Arsenal, mas infelizmente os erros cometidos foram demasiados e não deu para rebobinar Lacazette deste jogo. O treinador da equipa de Stamdford Bridge sorriu no apito final e mostrou a sua cremalheira. Dava para ver o Sarri que tinha nos dentes.
Foi uma final interessante com o Chelsea a aproveitar da melhor forma as 'Bakuradas' da equipa adversária. Os Gunners ainda lutaram, contudo, demonstraram não ter arsenal suficiente para enfrentar o Chelsea, que deu baile, ao som de Blues. Obrigado a quem leu. Um grande abraço e um Azerbaijão.

Este comboio não pára em Arroios

Nos últimos anos, tenho ido ocasionalmente a Lisboa. Sempre que lá vou, devido à complexidade desta ‘metrópole’, procuro algo que me oriente, a partir de Oriente. Costuma ser esta a minha estação de partida para usar o Metro. Até hoje não tinha nenhuma razão de queixa, tudo correra sobre rodas, bem encarrilado. Até cheguei a completar percursos que implicavam duas trocas de linha em menos de 15 minutos – um serviço ferroviário de grande nível (pensava eu).

Lisboa só poderia ser mesmo a capital deste país de atrasos, que é Portugal. Em Outubro de 2017, já se ouvia na composição: “este comboio não pára em Arroios”. Hoje, acho que ‘este’ e os outros comboios da linha verde, ainda não fazem a outrora habitual pausa neste mirífico destino. Como nunca tinha utilizado muitas vezes o Metro e sendo eu da província (tudo o que não seja Lisboa ou Porto), até achava que o Metro de Lisboa proporcionava um agradável serviço ferroviário. Meus amigos de Lisboa não entendiam como poderia eu gostar de andar de Metro e de até gabar este meio de transporte que, para eles, era sinónimo de constantes peripécias desagradáveis. Para a maioria dos lisboetas, o Metro está pelas estações da amargura e só existem razões de queixa.
— Ah, o pessoal dramatiza a situação actual do Metro porque, no fundo, só gostam de andar de carro próprio – pensava eu, a caminho do Metro.
Pois, saltei para a outra plataforma da opinião pública quando fiquei 57 minutos dentro de um comboio, preso algures na linha verde. Mais precisamente onde? Arroios. Se a vida corre como um rio, os regatos que deram nome a esta zona da capital, simplesmente não correm. Após esta indesejada espera, lá tive eu de correr para outros compromissos.

É certo que a minha prática de andar de metro é reduzida, todavia já consigo perceber algumas coisas que caracterizam esta faceta subterrânea da cidade de Lisboa e, também, do nosso país. Gosto de afirmar que ‘Lisboa é um buffet de pessoas’, pois se vê por lá todo o tipo de gentes. A alusão ao buffet deve-se mais à diversidade étnica e racial dos transeuntes, não é que queira andar aí comer pessoas... Não sei, talvez por ser natural de um sítio onde predominam quase exclusivamente seres caucasianos, vejo algum encanto em comtemplar os utentes deste metro cosmopolita. Uma vez, num daqueles conjuntos de 4 assentos, sentados estavam: uma senhora africana de meia idade; um turista branquelas algures do norte da Europa; uma jovem asiática e um senhor de origem indo-paquistanesa (para não utilizar o termo pejorativo ‘monhé’. Bem, parece que o usei. A sério que foi sem querer, acreditem). Bom, este quadro humano de olhares no vazio, alheios ao cacharolete racial que ali se compunha de forma tão espontânea e casual, mais parecia um daqueles anúncios da United Colors of Benetton. Quis tirar uma foto, mas não foi tarefa fácil. Sempre que tentava, discretamente, apontar a câmara do telemóvel para esta reunião informal de culturas, uma senhora idosa caucasiana, lançava-me olhares reprovadores. Qual seria o seu problema? Será que estava melindrada por não aparecer na foto? Tenho que admitir que não iria fazer grande coisa com aquela fotografia meio desfocada e com fraca iluminação. Certo é que essa senhora não tinha nenhuma razão para implicar comigo já que o assento ao seu lado estava ocupado por sacos da sua pertença. Quando ela olhava para mim, eu olhava ainda mais para ela e cheguei mesmo a pigarrear, tentando chamá-la à razão. Ela não entendeu a dica. Após uma paragem, entra outra senhora com outros tantos sacos e encaminha-se logo para a nossa zona, que era das poucas onde se avistavam lugares. As duas senhoras com sacos cruzaram olhares e eu entrecruzei-os para ver no que aquilo dava. Alguém tinha de ceder. E assim foi, de forma pacífica. Os sacos de ambas seguiram o resto da viagem no chão para que a recém-chegada senhora pudesse sentar o seu traseiro até ao próximo apeadeiro.

Sai-se um comboio, entra-se noutro e as histórias multiplicam-se como as mãos que se tentam segurar em varão firme. Desde o senhor que toca acordeão com um cachorro amestrado no ombro, ao sujeito cego que insiste em mendigar no metro mesmo com o risco de cair para a linha, passando pelo ‘carocho’ velhaco que inicia uma conversa constrangedora com uma rapariga ‘queque’... Passa-se lá tanta coisa. No mesmo dia, seguia num metro bastante devoluto quando se senta mesmo à minha frente um sujeito de aspecto incomum. Poderia ser um sem-abrigo, mas não se apresentava assim tão andrajoso. Poderia ser um cidadão dito ‘normal’, mas já havia ali um certo grau de indigência. O que é que isto têm de especial? –perguntais vós – bom, não era tanto o sujeito em si que me chamou à atenção, mas mais o que ele fazia. Como poderão ver na ilustração associada a este texto, este senhor trazia ao colo um belo exemplar canino, vestido com um mini-sobretudo em padrão verde-tropa. Contudo, o momento chave foi quando este indivíduo, ao embalar o canídeo de estimação, tira um dos seus auriculares verde-alface e o coloca dentro do ouvido da cadela por breves segundos, perguntando-lhe baixinho:
— Curtes esta?
Tão rápido como entrou na composição, este homem guedelhudo de óculos-de-sol partiu para novas aventuras, deixando muito por responder. De onde viera aquele boné? Como se chamava a cadelinha? Que música seria aquela que ouviam? Só o Metro de Lisboa saberá.

Saí eu também. No corrupio da mudança de linha, pude reparar em algo curioso, enquanto atravessava a estação da Alameda a passo rápido. Apesar da pressa para apanhar outro metro, não consegui deixar de reparar num vistoso anúncio, onde se lia:
“1.5€ a pizza inteira”

Vamos por fatias. Isto até parecia um bom partido, mas quando me acerquei da montra percebi que as pizzas eram relativamente pequenas. Ora, o adjectivo ‘inteira’, neste caso, serve só para aldrabar, fazendo-nos querer que se trata de uma grande pizza e que a vamos poder comer na totalidade. Vai-se a ver e até acaba por ser uma mensagem sem grande nexo. Pensem comigo, quando compramos uma pizza, seja ela grande ou pequena, esperamos que ela venha inteira sem mordidelas na côdea ou uma fatia em falta, verdade? Enfim. Acrescento só que o nome do estabelecimento era ‘Sabores do Metro’, passo a publicidade. A meu ver, este é um nome infeliz. Não é viável descobrir o ‘sabor do metro’, na medida em que isso implicaria andar aí a lamber corrimãos ou a snifar os estofos dos assentos, tudo coisas que não quero fazer. Na impossibilidade de saber qual é o verdadeiro sabor do metro, o nome deste café remete-me para uma outra dimensão sensorial que eu conheço e associo a esta rede de transportes - o olfacto. O cheiro a 'falta de banho', o chulé no Verão e a intersecção de odores de axilas são alguns exemplos. Por isso, não me deixei seduzir nem pelo placard publicitário nem pelo nome do conceito. Ainda assim, fica um sabor, um gosto no ar. O gosto de ser inspirado pela vida e pela bizarria que o Metro de Lisboa nos tem para oferecer.



Amigos 'Web Summitas'

Todos nós temos aquele amigo que anda, há meses, num estado de total histeria em relação ao Web Summit, contando os dias para este grande evento. É a pessoa que nos dá as seguintes informações:
— “Aquilo é um mar de oportunidades, nem imaginas.”;
— “Vão estar presentes mais de mil oradores e keynote speakers.”;
— “Tens o futuro à tua frente com imensas startups a mostrar as mais recentes novidades tecnológicas.”
— “Acho que a robot Sophia vai dar uma palestra incrível!”
E todos nós temos esse mesmo amigo que faz um ‘hype’ enorme em relação a esta feira de tecnologia, mas acaba por por ter uma experiência diferente das suas expectativas. 
Primeiro, adormece e chega atrasado ao único dia para o qual tinha bilhete. Mal chega, tira uma foto no local, colocando-a logo de seguida no Instagram para informar todos os seus seguidores de que está na Web Summit. Perde mais tempo nos stands de activação de marcas e propagandas várias a tentar ganhar brindes do que a ver o que as novas startups têm para mostrar. Distribui 5 cartões a empreendedores aleatórios e aperta a mão a dois empresários tailandeses (e acha que está muito forte ao nível do 'networking'). Senta-se para assistir a uma comunicação qualquer e como não tem muito interesse na área do ‘digital farming’, passa mais tempo a olhar para o telemóvel. Faz scroll no Facebook e Instagram, verifica se houve mais gostos na sua recente fotografia desde há 2 minutos e ainda publica duas ‘stories’. Uma a apontar para o orador desconhecido com a vista do espaço e outra com o foco na perna cruzada e nos sapatos novos, adicionando à imagem o ‘sticker’ que nos dá a conhecer a sua localização actual. E é isso. No fundo apanhou bastante seca, tirou algumas chapas e andou totalmente perdido na maior parte do dia. Ainda assim, garante-nos que foi brutal.
E terá aprendido alguma coisa? Só a Sophia saberá, mas foi certamente uma experiência tecnologicamente interessante. Do ponto de vista do scroll no Instagram, sim, sem dúvida.

Excesso de Supermercados

Pessoal, não sei se sabem da nova, mas ontem foi a inauguração do segundo ALDI em Coimbra. Eu acampei à porta para estar na fila da frente. Não, mentira, só cheguei lá pelas 8h29, mesmo antes de se cortar a fita. Fui o primeiro cliente deste novo supermercado, aproveito para deixar aqui registado. É algo que um dia poderei contar a filhos e netos, uma façanha da qual muito poucos portugueses se podem orgulhar. Todavia, nem só de um supermercado vive a cidade… Certo?

Os dados estatísticos dizem que Coimbra tem perdido população nas últimas décadas e o envelhecimento dos que cá ficam é uma realidade. Temos perdido dinâmica e apesar de nascerem cada vez menos bebés, podemos ficar tranquilos - nascem supermercados, famílias deles até (o Mini-preço Family é um exemplo). Se a praga da 'Dica da Semana' já é difícil de conter, agora temos uma autêntica epidemia de lojas. Já não somos mais a 'cidade dos estudantes’, somos a cidade dos folhetos promocionais e a guerra dos códigos de barras está ao rubro. Preparem-se porque nós, cidadãos, vamos ser disputados por estas grandes superfícies como um pacote de lâminas de barbear Gillette naquele dia em que o Pingo-Doce põe 50% de desconto em todos os artigos.

A profusão de supermercados na nossa cidade chega a ser tão ridícula que num trajecto de aproximadamente 2km entre o Coimbra Shopping e a Escola Eugénio de Castro, encontramos, ao todo, 5 supermercados. Cinco! Dá, em média, uma paragem para compras a cada 400m. Desculpem, mas isto não é normal no contexto de cidade média em que vivemos.

Neste momento, em Coimbra (contando com Eiras, Taveiro e Santa-Clara) temos as seguintes lojas: 1 Jumbo; 2 Continentes grandes; 1 Continente mais pequeno (antigo Modelo); 1 Continente Bom-dia; 2 Lildls; 5 Pingos-Doces; 2 Minipreços; 1 Mini-preço ‘Family'; 1 Pão-de-Açúcar; 1 Intermarché; 1 Supercor e 2 Aldis. Este segundo Aldi perfaz uma vintena, já dá quase para formar uma equipa completa de futebol. Como é que isto é possível!? Há algo que não está bem aqui e eu brado aos céus:
- MAS ONDE ESTÁS TU, E.LECLERC? Estamos à tua espera para passarmos a ser oficialmente a “Capital Portuguesa do Supermercado”, só faltas mesmo tu.

Brincadeiras à parte, isto é preocupante, estamos a perder a nossa identidade urbana e estamos a arrumar o pequeno comércio tradicional na prateleira do esquecimento. Temos de travar deste flagelo!

Só antes de acabar, viram o folheto desta semana do Pingo-Doce? Tem lá umas promoções mesmo top, dêem uma olhadela. Ups, acabei de me contradizer… Quem se contradizia muito era a minha antiga vizinha de frente, a Dona ALDIna. Viram o que fiz aqui? Vá, já chega.

Passagem de Ano

Esta é uma festa estranha, na medida em que estamos todos convidados para a celebração e não existe propriamente um aniversariante. No fundo, festejamos a nossa insignificância existencial face à passagem natural do tempo. É cruel pensar nas coisas assim, mas se não podemos contrariar o avanço dos ponteiros do relógio, o melhor poderá ser mesmo criar uma noite de folia desenfreada. Então, este ano, ao contrário de outras ocasiões semelhantes, decidi não optar pela vertente da festa e assumi o papel de chauffeur e simultaneamente baby-sitter de pessoas alcoolizadas. À falta de ideias melhores, acabei por passar o ano na minha cidade natal, que, diga-se de passagem, não é o melhor local para estar no Réveillon. A sempre inovadora Câmara Municipal de Coimbra preparou um espectáculo de fazer inveja a outros municípios: Três pontos-chave da cidade, três praças suficientemente amplas, três palcos e três estilos de música diferentes para agradar a públicos diversos. WOW! Isto é inédito! Fascinante a ‘inventividade’ e o ‘arrojo’ destes autarcas - sempre acabam por não me surpreender.

Desde o local onde o carro ficou estacionado até ao ‘início da festa’ cruzámo-nos com dois típicos exemplares de foliões - aqueles que acham fixe partir garrafas no asfalto e aqueles que preferem bolçar no passeio com uma mão amiga a segurar-lhes a testa .Começámos o nosso périplo pelo palco mais generalista cuja playlist se assemelhava a um sunset low cost, só que nesta noite fria, ao invés de uma feliz multidão veraneante, tínhamos cerca de uma centena de pessoas dispersas, envergonhadas e afastadas do palco. Quem “comandava as tropas” era um sujeito vestido à marinheiro com uns óculos de sol e com pouco jeito para persuadir aglomerados de pessoas. Às tantas, dizia ele:

— Pessoal, agora quero ver toda a sentar-se e quando a música rebentar vamo-nos todos levantar ao mesmo tempo! (mais uma vez, algo nunca antes visto neste tipo de eventos).

Face à inércia de um público embriagado, ele acabou por se resignar e pedir que as pessoas só baixassem a cabeça, isto caso não se quisessem sentar num chão imundo e repleto de vidro estilhaçado. Que desfeita quase ninguém ter alinhado na brincadeira. O ser humano consegue ser tão picuinhas por vezes… Nisto avançámos para o segundo palco, o reduto da juventude, pejado de crianças e adolescentes rebeldes que aproveitavam para “soltar a franga” longe das amarras educativas dos pais. Uma ‘creche’ ao ar-livre onde os mais novos aprendem a ser crescidos irresponsáveis. No palco, uma dupla que contrastava no tom de pele dos seus intervenientes gritava qualquer coisa do género:

— Yo, somos malucos, yo, yo, e hoje eu vou ficar maluco! Maluco, maluco, maluco!

Estava tudo visto por aquelas bandas, faltava apenas visitar o último recinto musical, conhecido como o “palco dos cotas”. Sim, ao som de êxitos de artistas como Carlos Paião ou Bandalusa, grupos de cidadãos com mais de 40 anos de idade faziam um animado “comboínho” e vibravam loucamente com a performance de dois djs anónimos. Era como se não tivessem outra altura no ano para festejar e deitar tudo cá para fora. E talvez não tenham, às vezes esqueço-me que vida de trabalhador custa. Arrisco dizer que, por norma, o trabalhador diverte-se e o jovem abusa. Foi o que aconteceu a uma moça que se atirou em lingerie para a pequena fonte da Praça 8 de Maio, isto com uma temperatura atmosférica de 8ºC (eis a definição de primeiro banho do ano). Por esta altura, com tanto ‘idoso’ a balançar os quadris num revivalismo forçado, era eu que precisava de refrescar as ideias. Dando a noite por terminada seguimos para um outro destino, conhecido pelos seus bares e oferta de diversão nocturna. Permitam-me este aparte: como assim diversão noctura? Pagar um exorbitante preço de entrada, fumar passivamente durante três horas num espaço abafado, levar com bebida entornada na nossa melhor camisa e ouvir reggaeton a altos berros - hmm, nada disto me transporta para o conceito de ‘diversão’. Não me divirto eu, divertem-se outros, como foi o caso de uma senhora, nos seus cinquenta anos, estatelada à porta de um bar e sem dar sinais de vida. Não me quedei muito tempo a observar todo o aparato com Polícia e INEM presentes, até porque não quis parecer um repórter da CMTV. Deduzi que estivesse tudo bem, talvez tivesse sido simplesmente uma noite dura, dureza materializada pelas pedras da calçada. Chegados ao destino, constatámos que uma das praças mais emblemáticas da cidade estava completamente vazia. Aliás, o único sinal de animação vinha de um carro incorrectamente estacionado no empedrado que lançava hits de kizomba com a ajuda de um potente subwoofer instalado na bagageira. A noite estava mais que enterrada e a última pessoa conhecida que encontrei foi um colega que bebia gin puro directamente da garrafa.

Numa noite em que ainda caminhei uns bons quilómetros poderia queixar-me de algum cansaço físico, todavia pude olhar para a Passagem de Ano com novos olhos, limpos de preconceitos e de confetis. A transição entre um ano e o seguinte é isto, um misto de alegria, tristeza e um monte de coisas que nunca vou compreender. Talvez na próxima passagem de ano consiga ficar mais esclarecido em relação aos múltiplos fenómenos do Réveillon, do mesmo modo que o céu se aclara com a ajuda do fogo de artifício. O ideal será esperar um ano e não deitar os foguetes antes da festa. Até 2019 e pelo meio tenham um bom 2018!





A visita de um Anjo

Estava Maria em casa quando foi visitada por um Anjo da Tecnologia que vinha num hoverboard drone.
— “Eu te saúdo, mulher favorecida!”
Surpreendida, Maria perguntava a si própria o que quereria o Anjo dizer com aquelas palavras.  
 “Não tenhas medo, Maria.” Continuou o Anjo: 
— Tenho para ti uma promoção maravilhosa! Muito em breve receberás um iPhone X, o qual usarás como te aprouver.
Maria, que tinha um Nokia 3310, então, perguntou ao Anjo da Tecnologia: 
— Mas como posso ter um telemóvel novo, se não tenho dinheiro? Ainda há uns dias o José comprou uma plaina eléctrica nova para a carpintaria e as nossas finanças não estão famosas…
O Anjo respondeu: 
— Pagarás em leves prestações. Um recibo mensal irá chegar a tua casa sempre que pagares uma prestação, isto até completares o pagamento. Além disso, também terás uma fiadora, a Isabel, tua parente. Caso não consigas pagar, ela ajudar-te-á. Nenhuma compra é impossível!
E Maria retorquiu: 
— Bem, não estou muito convencida quanto à questão das prestações... Todavia, um  iPhone X com um display OLED, duas câmeras com sensor de profundidade e um sistema de desbloqueio por reconhecimento facial, faria sensação aqui na Galileia… 
Então o anjo desapareceu.

Cinco minutos mais tarde, Maria é visitada por um outro Anjo, de seu nome Gabriel. Gabriel apareceu­-lhe e disse: 
— “Eu te saúdo, mulher favorecida! O Senhor está contigo!”
Confusa, Maria perguntou-lhe:
— És mais um desses Anjos da Tecnologia?
Então Gabriel respondeu-lhe:
— Longe disso. Eu trago-te uma benção maravilhosa! Não ligues a esses anjos da propaganda publicitária, tudo o que eles querem é fazer-nos crer que são os bens materiais que nos trazem a verdadeira felicidade. Além disso, aquele sistema de prestações é mesmo muito duvidoso.
Felizmente Maria, esquecendo o Anjo da Tecnologia, acreditou na Palavra do Anjo Gabriel e assim celebramos hoje esta data especial.

Que este seja um tempo onde nos centremos no essencial e que saibamos visitar e acolher quem nos visita. Desejo-vos um feliz Natal!

#natalessencial #naowortensempre






Comprei um livro


Anteontem fui à livraria
Para certo livro adquirir.
Queria um, mas não havia
Nem pensei em desistir!

Por muitas mais voltas

Haveria de o encontrar.
No lote de obras soltas,
Era o último exemplar.

O papel cheiroso trazia-me,

De novo, à infância escolar.
Antes de ler, apetecia-me
As páginas todas ‘snifar’.

Assim o fiz, sentindo tudo

Cor, gramagem, rugosidade.
Liguei pouco ao conteúdo
Fixei-me na sensorialidade.

A lombada abrir não quis,

Forcei-a, indecorosamente.
Na racha central pus o nariz
E percorri-a de faro quente.

Apalpei-o ardentemente

E cheirei-o até à exaustão.
Este era um livro diferente
Que dava gosto ter na mão.

Recordo agora o que vivi

Fiz a leitura de uma só vez.
Na verdade, não o li,
Não percebo finlandês.