Num espirro chinês veio a Covid-19 e a nossa vida mudou para sempre. Bateram-se recordes infecciosos e a saudade bateu também. Muito mudou, mas continuo a ser cliente habitual das cantinas dos SASUC. Enquanto jovem-adulto não muito independente do ponto de vista financeiro, estas cantinas dão o 'pão meu de cada dia'. É um pão ressesso e sensaborão, mas enche o bandulho e, por conseguinte, cumpre a sua missão.
E a que diz respeito a sigla SASUC, perguntais vós? Esta sigla, que é simultaneamente um acrónimo, significa 'Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra'. Para clarificar, os SASUC são muito associados às cantinas da referida universidade.
E porquê uma relação aberta com as cantinas? Bem, isto porque eu vou lá, frequento o espaço e como. Mas nada garante que eu volte no dia seguinte. E não sou esquisito, diria, pois não faço acepção de género ou cor - tanto vou às cantinas amarelas, como às azuis, como às vermelhas. Sim, em Coimbra algumas cantinas universitárias adoptam o nome da cor das suas cadeiras, mesas e tabuleiros. Estranho, mas não deixa de ser interessante e de promover a diversidade de cantinas sem preconceitos, estilo 'United Colors of Bennetton'. E a cada cor corresponde um tipo de menu. Umas acreditam em pizas e massas, outras em sandes, outras no prato social. Não há espaço para discriminação, quanto à cor ou crenças dessas cantinas. E também não há espaço para nos sentarmos quando tentamos almoçar ali pelas 13h15, dada a afluência de gentes nessa "hora de ponta". Quem gostar de 'bufetes de pessoas', deliciar-se-á com a grande diversidade humana ali presente. Eu cá prefiro mesmo a comida.
As cantinas raramente estão vazias, mas muitas refeições são solitárias. Estes 'restaurantes' dos SASUC são um porto de abrigo, que congrega solidões e melaninas distintas. Temos o estudante de doutoramento que não tem tempo para cozinhar, o estudante dos PALOP ou Erasmus que, por ter um orçamento delgado e por não conseguir cozinhar os pratos típicos do seu país de origem, recorre à cantina e o tipo preguiçoso que não faz grande coisa da vida e apenas se desloca à cantina por uma questão de comodismo. Mentira, eu apenas resido num T0 com uma kitchnet remediada, tornando-se pouco prático cozinhar no meu lar. Uma vez pensei em começar a recolher os números de telemóvel desses comensais 'perdidos' e criar um grupo de WhatsApp dos SASUCquios anónimos. Afinal de contas, todos nos conhecemos de vista, mas desconhecemos as histórias de cada um.
Alguns diriam que eu e esses outros desconhecidos somos o restolho do trigo estudantil, usado para fazer aquele papo-seco endurecido que está incluído na refeição. Discordo. Eu e esses comensais somos especiais. Por um lado somos aqueles que a sociedade abandona (se não fôssemos abandonados não estaríamos aqui a comer jardineira morna às 21h12 de uma animada quinta-feira académica), mas que ao mesmo tempo acolhe (sob a forma de uma refeição social de preço reduzido, comparticipada pelo Estado Português através dos SASUC). E deixo uma pergunta apetitosa: Se eu for almoçar sozinho à cantina e pagar 2,40€ pela refeição, até que ponto fará sentido dizer que se tratou de uma refeição social?
Tento romantizar tudo isto, mas o dia-a-dia de um SASUCquiano é duro, duro como os grãos de arroz Carolino mal cozinhado (prometo que é a última vez que faço analogias os hidratos de carbono mais comuns da ementa). Houve uma noite em que decidi arriscar pela ditosa 'feijoada de tofu'. Arrependido, dei garfadas de autocomiseração enquanto ouvia, pelos altifalantes do salão de refeições, a música "Para os braços da minha mãe" de Pedro Abrunhosa. Não obstante a memória reavivada dos pratos da minha mãe, eu ingeri a totalidade daquela feijoada, olhando em volta.
As caras conhecidas são obliteradas com o passar dos anos lectivos, todavia eu persisto. Imagino que, mais dia, menos dia, um dos funcionários habituais me indague:
— Então e nunca mais acaba o curso?
Eu já tenho resposta pensada para tal cenário:
— Ah, eu decidi continuar para o doutoramento.
Aqui para nós, eu já não estudo há uns 3 anos e estou claramente a aldrabar o sistema, confesso. Todavia, até se pode dizer que tenho levado a cabo um estudo social importante com essas refeições fora do prazo universitário. Trata-se de um 'doutoramento' empírico, no terreno, sobre as cantinas dos SASUC. E se isto for mesmo uma dissertação académica (apesar da parca fundamentação bibliográfica), de certeza que o 20 não me escapa. O que é certo é que a 'Escola da vida' dos SASUC nunca foi tão nutritiva para uma mente tão inquieta como a minha.
É simples a minha rotina de jantar. Quando vou à cantina, (sempre in-extremis com a hora de fecho) como no meio de um rebuliço em forma de mesas corridas. Num enfadonho poio de puré de pacote marca Maggi, perde-se um modesto pedaço de arbórea, transformando a refeição numa espécie de jogo do Mikado, metáfora evidente pelas múltiplas espinhas que vou pondo de lado na borda do prato.
Dou o último golo de água morna da torneira e arrumo a cadeira azul-bebé (erário da histórica Universidade de Coimbra), arrastando-a no chão barulhento. Entrego o tabuleiro no postigo e digo um anónimo "boa noite" à senhora que os arruma, também ela anónima, infelizmente. Ela não me responde e eu sinto um silêncio pungente, de um abandono invisível que não tem direito a reflexo nas vidraças da sala de jantar. E o motivo de não haver reflexo desse abandono é o facto de o espaço estar eivado de condensação e vapores oriundos da cozinha (que deixam os vidros das janelas totalmente embaciados). Sentimento abstruso, este de não conseguimos vislumbrar o futuro e sermos convidados a comer o momento presente. Por 2,40€. Ontem, hoje e até o último SASUCquiano comprar a senha de refeição.
| Desenho que fiz da antiga Cantina das Azuis (pré-pandemia) |
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